Já ouvi de tudo quando se fala em turismo cultural, gente defendendo as coisas mais absurdas, já soube de um mané que chegou a propôr a reconstrução do Muro de Berlim para estimular o turismo cultural, não preciso dizer que esse sujeito não ganhou muito destaque por seu infeliz comentário, ou preciso? Tantas décadas para se derrubar aquele treco, e vem alguém com essa?
Recordo ainda hoje do dia em que eu, ainda adolescente, pude ver o Muro de Berlim sendo derrubado pelas mãos do povo alemão, o povo sim, pessoas comuns que acordavam, comiam, iam para o trabalho, voltavam, assistiam tv e depois dormiam para repetir no dia seguinte a mesma vida emocionante de sempre, pessoas comuns, que com picaretas, marretas ou na mão saíram do nada quebrando um muro que havia sido erguido após a Segunda Guerra dividindo uma cidade, famílias e amigos até ser enfim derrubado em 1989!
Recordo ainda hoje do dia em que eu, ainda adolescente, pude ver o Muro de Berlim sendo derrubado pelas mãos do povo alemão, o povo sim, pessoas comuns que acordavam, comiam, iam para o trabalho, voltavam, assistiam tv e depois dormiam para repetir no dia seguinte a mesma vida emocionante de sempre, pessoas comuns, que com picaretas, marretas ou na mão saíram do nada quebrando um muro que havia sido erguido após a Segunda Guerra dividindo uma cidade, famílias e amigos até ser enfim derrubado em 1989!
Eu que vivi um pedaço da Ditadura e pude viver toda a angústia por democracia, e vivi em mundo de rupturas de fronteiras, em que assistíamos Jornadas nas Estrelas indo aonde nenhum homem jamais esteve, e pudemos ver o rock brasileiro mudar após o Rock in Rio, ao mesmo tempo em que o Brasil esperava que Tancredo Neves mudasse a história de nosso país, realmente, não consigo conceber uma sociedade democrática em que seja possível preservar tudo o que em décadas anteriores teria sido visto como a pior coisa do mundo!
Aqui mesmo em Nova Lima, já tive a oportunidade de ouvir os saudosos defensores das estradas de terra! Dizem que se deve deixar estradas de terra porque representam a vida bucólica! Assim, em meio a estradas de terra, os turistas com seus I-Pod pilotando motocicletas de cross e falando em seus celulares com câmera poderão viver e experimentar a beleza majestosa da vida no campo! Ora, meus amigos e amigas, existem vários equívocos aí: primeiro, ao contrário de casas antigas, festas típicas, gastronomia tradicional e variadas expressões do folclore local, as estradas representam riscos reais! Sim, sujeitar turistas culturais, os mais críticos de todos e os que mais movimentam dinheiro com suas compras de artesanatos, roupas, comida, souvenires variados, workshops e sabe-se lá mais o quê, aos riscos de ferimentos graves ou mesmo à morte em estradas perigosas, cheias de buracos, ou que se tornem um lamaçal durante as chuvas, é quase como dar um tiro no próprio pé! Além disso é muito mais difícil prestar socorro com estradas de terra do que com asfalto, se tiverem dúvidas quanto a isso, ora perguntem ao Corpo de Bombeiro qual dos dois tipos de acesso prefeririam para resgatar turistas! Com isso me recordo de uma citação na obra A Era da Incerteza, em que se descrevia a Lei de Liebling, que dizia em linhas gerais que uma pessoa sórdida o suficiente é capaz de dar um chute na própria bunda e se colocar a si mesmo para fora de casa. Talvez se esteja apenas desejando testar a Lei de Liebling, ou talvez as muitas dezenas de Leis de Murphy!
Segundo, essas estradas também são acesso dentro do município, e o turismo, a menos que aqui se torne Atenas, Cairo, ou alguma outra cidade com transcendental valor histórico, ou ao menos que se descubra aqui uma nova Stonehenge ou pouse um disco voador no meio da praça, será sempre sazonal! Ou seja, os turistas virão em meses de férias, em feriados, ou se algum dia houver aqui algum festival grande como o de cinema em Tiradentes, ou os festivais de Inverno como o de Ouro Preto entre outras cidades coloniais que adotaram parcerias com universidades, e mesmo assim, virão apenas se não tiverem reclamações anteriores, se o município os comportar e se houverem atrativos condizentes com o esforço!
É preciso a prefeitura decidir se deseja atrair esportistas radicais que muitas vezes causarão mais erosão nas florestas abrindo trilhas com motocicletas de cross, sabidamente ligadas à erosão, ou perturbando a paz dos animais com seus motores, ou sujeitando tais animais ao risco de atropelamento por jipes e outros veículos off-road, e que raramente irão à cidade comprar souvenires, freqüentar restaurantes, participar de workshops e portanto gastar muito dinheiro, porque esse, é o perfil dos turistas culturais e não dos ecológicos (nem sempre ecológicos), ou se deseja atrair esses turistas culturais que desejam vivenciar emoções diferentes mas dentro do ambiente protegido das pousadas, que querem conhecer casas preservadas, e não ver uma cidade aonde algumas casas antigas, não raro muito elogiadas pelo povo daqui, deram lugar a prédios modernos, não é?
Mas se derrubar o novo e reconstruir o velho é complicado, ora, pode-se fazer a famosa réplica, basta pedir o auxílio de órgãos com o IEPHA e o IPHAN, entre tantos núcleos de pesquisa universitários e mesmo hoje em dia poucas mas existentes empresas de pesquisa histórica, e assim fazer todo o levantamento oral, fotográfico e patrimonial para produzir essa réplica arquitetônica! Existe um projeto estrangeiro para remover pedra por pedra toda a cidade antiga de Veneza antes que o cataclisma ambiental a faça ficar sob o mar, e semelhante ação já foi feita no Egito, com o deslocamento de gigantescas estátuas para se poder fazer uma represa! Uma casa ou outra não serão tão complexas, e certamente não são missão impossível nem para historiadores nem para engenheiros.
Ora para se atrair a mesma renda da qual vivem cidades como Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, São João del Rey, Parati, Petrópolis e tantas e tantas outras Brasil a fora, é antes de mais nada necessário pensar historicamente, e isso significa respeitar o passado sem desmerecer o futuro, significa melhorar acessos, restringir o trânsito de veículos pesados, como Congonhas já faz, porque tais veículos além de oferecerem riscos cruzando ruas estreitas com suas cargas pesadas, também geram trepidação capaz por exemplo de danificar as artes do Aleijadinho na Igreja de Nossa Senhora do Pilar ou em outras, semelhante dano também podem causar caixas de som e equalizadores! Talvez fosse melhor criar um local próprio para shows, um teatro apenas e uma área de rodeios são incondizentes com uma visão de turismo empreendedor, é preciso haverem mais lugares aonde os artistas locais possam se aperfeiçoar, e mais lugares com tecnologia para trazer mais pessoas de fora, pois a cultura não é uma via de mão única, mas uma grande troca! Em termos de crescimento artístico, o ideal penso eu como historiador e empresário científico, seria que os artistas daqui se apresentassem em BH e os de BH e várias outras cidades, aqui, e não da maneira bairrista bucólica de cada um no seu canto! Pois BH, não como cidade grande mas sim como capital do Estado, é o trampolim natural para a fama desses artistas locais, e para a projeção da própria Nova Lima, e por outro lado, trazer pessoas de outras cidades para cá, se apresentarem, é importante para permitir aos artistas locais em começo de carreira terem acesso a outras influências, a outros olhares e a novas idéias, ainda que felizmente a TV e a internet hoje em dia ajudem muito nisso! Mas pergunte a um músico o que ele acredita que gostará mais: assistir uma orquestra barroca de Ouro Preto e poder ouvir uma palestra do maestro, ou ver um vídeo já pronto no Youtube? Creio que grande maioria dos músicos preferirá a primeira opção!
Turismo Cultural, significa, portanto, também criar atrativos lucrativos que estimulem companhias de teatro, orquestras típicas, festas folclóricas, comida típica, e os ateliês de artesãos, que são a essência desse turismo seja por seus espetáculos ou produtos, seja pela oportunidade do turista aprender visitando!
E querem preservar as estradas de terra…
Ora, então vamos, vamos preservar a vida bucólica! Você quer preservar mesmo a vida bucólica? Então vamos: vamos destruir os hospitais e as policlínicas porque no tempo de nossos avós não existiam coisas assim no campo! Vamos expulsar as empresas que vendem eletrodomésticos, eletroportáteis, telefones celulares ultramodernos, porque ora essa, já era difícil conseguir usar o velho telefone de disco e raramente as fazendas os possuíam! Quer realmente preservar a vida bucólica de antes? Ainda não se convenceu de que isso é um erro? Então acabemos com os carros, nada de Mercedez, Toyota, Troller, Palio, Blazer e nem mesmo Honda! Vamos voltar a montar em jumentos e usar carros de boi! Vamos recriar o passado, voltemos com os coronéis de terra mandando mediante jagunços, voltemos com o poder das antigas oligarquias e aristocracias, oba, terei poder enfim! Voltemos, ora bolas, com a economia do gado, do café e da cana, para quê trazer indústrias tecnológicas, pólos joalheiros e outras coisas sofisticadas se a intenção é preservar o ritmo da vida passada, a vida bucólica dos tempos tranqüilos de nossos avós! E internet? Nem pensar!
Não gostou??? Nem eu… pois eu sou um cidadão, pago meus impostos em dia e exijo o cumprimento do direito de ir e vir, quero estradas asfaltadas, e com as devidas contenções, aonde eu não corra o risco de ser parte de uma estatística da polícia rodoviária…
Já imaginaram o monte de turistas estrangeiros indo para as pirâmides do Egito a pé sob um sol de mais de 50 graus? Pois é, por isso hoje em dia há estradas e carros…
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Gustavo Paula "Xamã", Cientista: Historiador Estrutural & Cientista Cibernético, MBA em Gestão Pública e Responsabilidades Fiscais. URL: www.arqueomundo.com.br . Diretor Científico da Clio Museu de Cultura Material, Nova Lima - MG.
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